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O corpo em campanha: da notoriedade vazia à ambição política — Arari testa sua própria Cicciolina
Comparações com a ex-deputada italiana revelam menos semelhanças do que aparentam — e escancaram um fenômeno bem contemporâneo: a tentativa de transformar likes em votos
Por Rádio Voz de Arari
Publicado em 15/04/2026 20:34 • Atualizado 15/04/2026 20:36
Novidades

Volta e meia, ressurge a comparação entre uma pré-candidata a deputada federal residente em Arari e a trajetória de Ilona Staller (popularmente conhecida como Cicciolina), personagem que atravessou os anos 1980 desafiando convenções — e, detalhe importante, chegou ao Parlamento italiano.

 

A analogia até funciona… à primeira vista. Afinal, ambas orbitam a mesma estratégia básica: transformar exposição íntima em ativo público. Mas é justamente aí que a semelhança começa — e praticamente termina.

 

O corpo como palanque (com fins diferentes)

Cicciolina não apenas explorava a própria imagem: ela a convertia em discurso político. Sua performance era calculada, alinhada a um conjunto de ideias e a uma legenda — o Partido Radical — que, goste-se ou não, tinha um projeto claro de sociedade.

 

Já no caso da “dublê de Cicciolina”, de Arari, a exposição parece operar em outra lógica: menos como instrumento de um debate e mais como combustível de visibilidade.

 

É verdade que ambas surgem como outsiders. Cicciolina veio do entretenimento adulto; enquanto a sua correlata de Arari é um típico produto das redes sociais, ambiente onde curtidas funcionam como aplausos e algoritmos fazem o papel de cabos eleitorais. Cicciolina saiu do escândalo para a política. A dublê residente em Arari ensaia trilhar caminho semelhante.

 

A velha diferença entre agenda e audiência

Entretanto, aqui está o ponto em que a comparação começa a ranger. Cicciolina defendia, com todas as suas contradições, pautas identificáveis: liberdades civis, legalização da prostituição, pacifismo em plena Guerra Fria. Havia ali um esforço — ainda que heterodoxo — de transformar provocação em proposta.

 

No caso da dublê radicada na terra da melancia o que se vê até agora é uma pré-candidatura sustentada exclusivamente mais por bizarrice do que por ideias e ideais. O debate de ideias, ao que tudo indica, é ingrediente secundário, na caminhada política da pré-candidata dublê de Cicciolina.

 

Do escândalo como ruptura ao escândalo como estratégia

Nos anos 1980, o escândalo político tinha algo de inovador, era revolucionário. Cicciolina chocava porque rompia padrões sociais e institucionais ainda rígidos.

 

Hoje, o escândalo virou quase protocolo. Em tempos de timelines aceleradas, a controvérsia não rompe — ela engaja. E engajar, como se sabe, é o primeiro passo para tentar converter atenção em voto.

 

A dublê de Cicciolina surge, assim, menos como herdeira da legítima deputada italiana e mais como um supérfluo produto de seu tempo: a era em que a política disputa espaço com o feed.

 

Entre a urna e o algoritmo

A comparação, no fim das contas, diz menos sobre duas figuras públicas e mais sobre dois momentos históricos. De um lado, uma provocadora que virou deputada. De outro, uma pré-candidatura que ainda busca provar que pode ser mais do que um fenômeno de visibilidade.

 

Porque, no mundo real — aquele das urnas —, curtidas não são votos. E viralizar, embora ajude, ainda não garante credibilidade.

 

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