Volta e meia, ressurge a comparação entre uma pré-candidata a deputada federal residente em Arari e a trajetória de Ilona Staller (popularmente conhecida como Cicciolina), personagem que atravessou os anos 1980 desafiando convenções — e, detalhe importante, chegou ao Parlamento italiano.
A analogia até funciona… à primeira vista. Afinal, ambas orbitam a mesma estratégia básica: transformar exposição íntima em ativo público. Mas é justamente aí que a semelhança começa — e praticamente termina.
O corpo como palanque (com fins diferentes)
Cicciolina não apenas explorava a própria imagem: ela a convertia em discurso político. Sua performance era calculada, alinhada a um conjunto de ideias e a uma legenda — o Partido Radical — que, goste-se ou não, tinha um projeto claro de sociedade.
Já no caso da “dublê de Cicciolina”, de Arari, a exposição parece operar em outra lógica: menos como instrumento de um debate e mais como combustível de visibilidade.
É verdade que ambas surgem como outsiders. Cicciolina veio do entretenimento adulto; enquanto a sua correlata de Arari é um típico produto das redes sociais, ambiente onde curtidas funcionam como aplausos e algoritmos fazem o papel de cabos eleitorais. Cicciolina saiu do escândalo para a política. A dublê residente em Arari ensaia trilhar caminho semelhante.
A velha diferença entre agenda e audiência
Entretanto, aqui está o ponto em que a comparação começa a ranger. Cicciolina defendia, com todas as suas contradições, pautas identificáveis: liberdades civis, legalização da prostituição, pacifismo em plena Guerra Fria. Havia ali um esforço — ainda que heterodoxo — de transformar provocação em proposta.
No caso da dublê radicada na terra da melancia o que se vê até agora é uma pré-candidatura sustentada exclusivamente mais por bizarrice do que por ideias e ideais. O debate de ideias, ao que tudo indica, é ingrediente secundário, na caminhada política da pré-candidata dublê de Cicciolina.
Do escândalo como ruptura ao escândalo como estratégia
Nos anos 1980, o escândalo político tinha algo de inovador, era revolucionário. Cicciolina chocava porque rompia padrões sociais e institucionais ainda rígidos.
Hoje, o escândalo virou quase protocolo. Em tempos de timelines aceleradas, a controvérsia não rompe — ela engaja. E engajar, como se sabe, é o primeiro passo para tentar converter atenção em voto.
A dublê de Cicciolina surge, assim, menos como herdeira da legítima deputada italiana e mais como um supérfluo produto de seu tempo: a era em que a política disputa espaço com o feed.
Entre a urna e o algoritmo
A comparação, no fim das contas, diz menos sobre duas figuras públicas e mais sobre dois momentos históricos. De um lado, uma provocadora que virou deputada. De outro, uma pré-candidatura que ainda busca provar que pode ser mais do que um fenômeno de visibilidade.
Porque, no mundo real — aquele das urnas —, curtidas não são votos. E viralizar, embora ajude, ainda não garante credibilidade.